Ação coletiva difunde o hardcore autoral

Cena Livre

A primavera em Rio do Sul é para os fortes. O sol se tornou quase um objeto não identificado no céu e as chuvas de outubro trouxeram a enchente. Poucos dias antes da gravação do segundo Cena Livre, o espaço da Oca Cultural estava tomado pela água. E o cenário da cidade lembrou 2011, ano de outra cheia. Mas a adversidade é campo para a transformação e a criatividade.

A banda Homem Lixo aproveitou o grande depósito de entulhos que resultou da enchente daquele ano para gravar o clipe de Cubatão. Um cenário impactante e simbólico, assim como o extinto presídio onde foram captadas as cenas para o clipe da música que leva o nome da banda. Porque a Homem Lixo quer isso, apertar a pedra no sapato, falar daquilo que incomoda, com sarcasmo e escracho – como a imagem do mendigo que perambula pela cidade e é ignorado por senhores bem vestidos, zoado por adolescentes e que toma baldes de água fria em pleno inverno para a diversão alheia. Ele é homem lixo, como assim também podem ser os músicos, e eu e você, quando nos deixamos tomar pelo lado negro da força. A banda quer apontar não para o lixo no chão, mas para o que há de sujo em algumas atitudes.

É a música e a experiência de ser banda que a segunda edição do Cena Livre se propôs a mostrar. O projeto ganha corpo com a mobilização coletiva, com novas caras na captação das imagens e áudios, entrevistas, edição, divulgação nas redes, e com quem já participa desde as primeiras conspirações. Uma ação que mostra sua forma com o lançamento da primeira edição, que pautou outra banda da casa, os Apicultores Clandestinos.

É o meio que a cena cria para se mostrar e se fortalecer, orgânica e virtualmente, ao mesmo tempo que cristaliza as ideias num projeto concreto. A proposta é ser também palco para novas bandas, muitas que não têm como produzir um material de divulgação com esse conceito. É colocar a cena de Rio do Sul e região em contextos mais amplos, valorizar a produção autoral sem deixar, claro, de também se divertir.

O domingo de gravação com a Homem Lixo foi de primavera rio-sulense. Manhã com céu cinza, chuva, frio e vento assoviando janela a dentro. Mas a adversidade é campo para a transformação e a criatividade. E foi assim ao longo das boas horas de trabalho à medida que o clima dava um tempo e a área de festas da sede da Oca Cultural era transformada em cenário de gravação.

Na foto final, um grande grupo, algumas cabeças que seguem por mais dias e noites planejando, executando e aprendendo com o projeto. E assim se cria fluxos nesse cenário, faça tempo bom ou ruim.

Foto oficinal Cena Livre #2
Foto oficial Cena Livre #2